O Necrófago

Tenho um colega necrófago. Alimenta-se dos restos que ficam ‘pendurados’, ‘perdidos’, esquecidos ou que são demasiadamente desinteressantes para os outros pegarem. Refiro-me a restos de trabalho. Ninharias, coisitas, paneleirices, foleirices e outras entropias.
Tem outra característica interessante, sempre que um colega se ausenta das carnes frescas da presa, vulgo trabalho, o necrófago, demasiado cobarde para se entregar à luta da caça, aproxima-se para debicar, perdão, debitar ideias. Mas assim que a leoa, vinda de deitar um olhinho às crias, se volta a acercar do seu manjar, logo o necrófago enfia o rabo entre as pernas traseiras e salta fora do jogo. Fica no entanto convencido que passou a dominar a cena. Ouviu umas coisas, provou o sabor da carne, socializou com gente diferente o que lhe permite apessoar o colarinho da camisa e tentar a sorte lançando soluções infinitamente sonhadas na atmosfera profissional de uma qualquer reunião de ‘ponto-de-situação’, dos trabalhos decorrentes. O necrófago gosta de ter o chefe por perto, e dá-se bem com o chefe. Nem poderia ser de outra forma, a sua insegurança e figurinha ridícula e medrosa só é sustentável com as escoras de um chefe. Qualquer chefe lhe serve, bamboleia-se em queda à frente dele, e o chefe, porque é chefe, lá lhe deita umas amarras e sem dar conta, sustenta-o o resto da vida.
Hoje dei um rugido ao necrófago, um rugido de leão embora seja leoa. Hesitante e traiçoeiro atravessou-se-me no caminho com a presunção de um informado nas matérias. Acossado, saltou da mesa onde se partilhavam mistérios da profissão e escondeu-se na toca árida, vazia de conquistas, troféus, sacrifícios e esperanças.

Pressinto que, tenho de ter muito cuidado com a presa da minha próxima caçada!