Anos 70 – Histórias, apontamentos, acontecimentos

Resposta a desafio do Zé:

Qualquer português que se preze, tem que dividir a década de 70 em 2 períodos distintos: antes do 25 de Abril de 74 e depois do 25 de Abril de 74, ou melhor deve dividir em A.L. (Antes da Liberdade) e em D.L. (depois da Libertação). 

Falaremos para já, dos anos 70 A.L. e do tema proibido na época: métodos contraceptivos. 

Nessa época em Portugal, não existia a pílula, o DIU, o diafragma, o preservativo feminino, a contracepção hormonal injectável, o adesivo contraceptivo, os implantes dérmicos ou a contracepção de emergência. Nem sequer havia o hábito ou razão para o homem usar o preservativo, até porque era comum ouvir-se dizer que o facto de o homem não ejacular livremente poderia fazer-lhe mal e ser motivo de uma qualquer enfermidade. 

Assim os casais funcionavam da seguinte maneira: eles na maior liberdade e descontracção durante o acto, com tudo incluído conforme mandava a tradição e a que um homem tinha direito, elas provavelmente rezando Avé-Marias o tempo todo, gemendo de frustração, imaginando as suas barrigas a crescer de mais um filho para criar e uma boca para comer. 

A mão pesada da igreja, dava o mote aos casais do crescei e multiplicai-vos, combatia severamente o uso dos preservativos, o recurso ao aborto e as relações fortuitas e extra-matrimoniais. O sexo por prazer era intolerável. 

Grande parte das mulheres dos anos 70 A.L. já trabalhavam fora de casa, cumpriam horários, tinham rotinas e obrigações. No entanto ganhavam salários muito inferiores aos dos homens o que não lhes garantia a independência  económica. As raparigas casavam cedo, muitas vezes para fugir aos trabalhos pesados de uma casa com muitos irmãos pequenos, depressa engravidavam do 1º filho. As tarefas domésticas eram da sua inteira responsabilidade, só as famílias muito ricas tinham empregadas, os maridos trabalhavam fora de casa ou estavam mobilizados na guerra do ultramar. Os homens não tinham o hábito de colaborar nas tarefas domésticas, nem em tratar dos filhos. Os maridos eram mais um filho para as mulheres cuidarem. 

Só poucas mulheres dos anos 70 A.L em Portugal, sabiam das lutas para emancipação da Mulher travadas desde os anos 60 no mundo ocidental, desconheciam que tinham direitos, e que eram elas a ter a voz mais activa para determinar o nº de filhos que desejavam ter. No entanto em silêncios e cochichos queixavam-se das gravidezes sucessivas que lhes aconteciam e desejavam poder controlar o seu corpo e as suas vontades. 

Lembro-me de ver uma amiga da minha mãe, chorar convulsivamente, queixando-se que o seu próprio marido exigia ter relações sexuais com ela, sempre que lhe apetecia, sem qualquer protecção ou cuidado, alegando que estavam a pecar se fizessem de outra forma. Era um homem muito religioso!

 Os métodos contraceptivos mais comummente usados em Portugal nos anos 70 A.L., eram os seguintes:   

Método do calendário: que consiste em anotar durante mais ou menos 1 ano a duração dos ciclos menstruais; uma vez feita esta contagem, tem de se subtrair ao ciclo mais curto (18 dias) e ao ciclo mais longo (11 dias); a partir do momento em que estes resultados estão encontrados, o intervalo entre ambos, do menor para o maior, indica o espaço de tempo no qual a mulher se encontra no período mais fértil dos seus ciclos, onde ocorre a ovulação e é mais provável que aconteça uma gravidez.   

Método do muco: muco é uma substância gelatinosa, produzida pelas glândulas do cólo do útero que sofre alterações ao longo do ciclo menstrual; na altura da ovulação adquire uma aparência de clara de ovo com grande elasticidade (filância); este muco filante facilita a entrada de espermatozóides no útero; se uma mulher quiser utilizar este método para contracepção deverá, todas as manhãs, observar se tem muco na vulva e como é a sua aparência. 

 

Método da temperatura: a temperatura basal do corpo de um mulher (medida logo ao acordar, sempre à mesma hora, antes de comer e sem ter feito esforço muscular tirando a temperatura na boca, no recto ou na vagina, usando sempre o mesmo termómetro), é variável durante o seu ciclo.

Coito interrompido:  consiste em retirar o pénis do interior da vagina quando o homem sente que a ejaculação está próxima.