Cenas, cenários e momentos

•Outubro 10, 2009 • Deixe um comentário

momentos_ys

Cenário 1

Juntos. Ficávamos num silêncio constrangedor de quem não tem nada para dizer. O único barulho possível entre 2 desconhecidos.
Pelo menos, dizer o nome.
O nome.
É bom.
É, é muito bom.
Fingia adormecer. Imitava um cansaço jamais fartado.
Ficava num desprendimento profundo, branco, vazio.
Apertava a mola mas sem necessidade. Compunha a pintura.
Vestia-se como se fosse de manhã. Sacudia supostas poeiras do casaco.
Tens pente? Penteava-se.
Deixa fluir.
Deixo.
As rodas circulavam e faziam a imagem ficar longe. Mais pequena.
Uma curva e desaparecia.
A cidade acolhia-me com desdém.

watch?v=A6artkfX54s

Perdão

•Abril 6, 2009 • Deixe um comentário

rodelas-cenouras1Mulher de dois cérebros,
Peço-te perdão e espero que me perdoes.

Mulher responde:

Às lembranças que me são descómodas, gosto de as pôr na minha tábua de cozinha verde alface, pegar depois na faca grande de cabo de aço com um serrilhado incerto e ponteagudo deveras cortante e desmoldo-as com um prazer violento de assassina de sinapses.
Caiem de lado como rodelas de cenoura decepadas.
Minto-me e de mãos sujas penso que me deslembro delas.

Lista sobre o que tenho que escrever

•Março 29, 2009 • Deixe um comentário

1- Transcrever os textos que os homens que por mim passam, deixam…
2- Sobre os homens e a mulheres que trabalham no Call center da Zon TV Cabo e que observo diariamente.
3- Sobre ti (quando tiver coragem)
4- E sobre ti (também quando tiver coragem)
5- Sobre a minha infância
6- Sobre a minha vida de colégio interno

O coágulo

•Fevereiro 5, 2009 • Deixe um comentário

tryingtosayComecei a fazer um almoço rápido num cafézinho de bairro, à saída do ginásio. Faço ginástica, num destes ginásios para mulheres com o conceito magnífico da máxima rentabilidade no menor tempo possível. Ajusta-se a mim como uma luva e a socialização com aquelas mulheres quase todas com uns quilos a mais e que profissionalmente vão desde empregadas da limpeza a médicas, faz-me realmente bem.

Peço sempre o mesmo para o almoço: uma sopa, uma tarte pequena de ovo e cogumelos e um sumo de laranja natural.
O ambiente do café destoa completamente do aséptico, cinzento e padronizado do meu refeitório. Vejo gente, vejo o povo e dá-me prazer senti-lo nos 10 minutos que demoro a comer. Estou a tornar-me muito mais indulgente com os outros.

Como sempre de pé ao balcão, e como um filme em câmara rápida, vejo o corropio de gente que sai do balcão, se chega ao balcão, pede uma sanduiche de panado cá atrás porque não conseguiu ter espaço no balcão, e dá-me imenso prazer observa-los. Aliás, é como se fizesse parte do meu menu: olhar as pessoas, ver o que comem, ver que os gordos comem coisas que os vão fazer engordar mais, ver que alguns trazem o dinheiro contado para o almoço e ouvir deliciada as conversas.

Hoje estava ao meu lado uma mulher com aspecto velho, de cabelo comprido desgrenhado já grizalho e atado com um totó de miúda e pobremente vestida. Como estou perto do Intendente achei que seria uma prostituta da zona. Falava ela com a miúda que nos atendia ao balcão dizendo que para a semana ía ser operada à cabeça, para tirar um coágulo. A miúda que aparenta ter uns 17 anos e já tem um filho, quis saber como lhe tinha aparecido aquilo. Ela despachada e feliz de ter sido chamada pelo hospital para a operação, contou que há 3 anos o marido lhe tinha partido um prato na cabeça e que o impacto da pancada lhe tinha perfurado um tímpano e lhe fez o aparecimento do coágulo no cérebro. A miúda impressionada, disse: – Eu punha-o em tribunal! Ela, entusiasmada ripostou: – Não. A minha vingança é mostrar-lhe como tenho o meu trabalho honesto, a minha casinha que consegui comprar, como ganhei a custódia dos meus filhos e como arranjei um novo companheiro que gosta de mim!

Às vezes quando estou a comer a sopa na taça de vidro e a beber o sumo de laranja pelo copo, penso quantas pessoas comeram naquela taça e beberam por aquele copo, incluindo aquela mulher feia, despenteada, pobre e maltratada e sinto nojo.
Gostava de mandar este segredo para o Post Secret do Frank Warren.

When a man loves a woman

•Fevereiro 4, 2009 • Deixe um comentário

O anel é lindo! Obrigada.
anel

Dizer “Mal”

•Fevereiro 1, 2009 • Deixe um comentário

lexus1Recebi esta madrugada um email, proveniente do Tal Senhor Gestor Público a que me referi aqui anteriormente, com um texto já velhote da Clara Ferreira Alves e publicado no Expresso, somente a dizer “Mal”.
A capear o tal texto, o Senhor Gestor Público de apelido Moura, dizia o seguinte: “Vale a pena ler. De que estamos á espera?”
Sugere assim, a 50 e tal mortais a quem também envia o email, que façamos alguma coisa, que nos mexamos, que levantemos bandeira contra o “Mal” que a Clara delata de tão habituada estar naquelas sessões televisivas, extenuantes e tão intelectuais que metem nojo, dominadas “Eixo do Mal”. Que saudades tenho das “Noites da Má Língua”, com o Miguel Esteves Cardoso, o Rui Zink, a Rita Blanco e o chauvinista do Norte comandados pela Júlia Pinheiro, quando ainda não tinha virado saloia nem fazia “As Tardes da Júlia”, onde agora entrevista médiuns, espiritistas e senhores que curam dores de corno com poderes transcendentais (Moura, toma atenção a estas matines)!

Passo a explicar os “Males” a que a Clara se referia: era o mal da injusta justiça portuguesa que não trata dos que apitaram o dourado, nem de quem matou Sá Carneiro, nem do Isaltino que continua com cara de chulo, nem do padre Frederico que está no Brasil, nem da Madie que não devia ter morrido, nem do sangue infectado da Beleza, nem do Albarran mais o Carlucci, nem de revelar os Bibis da Casa Pia, era o mal dos jornalistas que são mais poder que o Poder e se sentam à mesa do Poder para comer de um prato comum e agradecem-se olhos nos olhos como se orassem a Deus, era o mal do chefe do governo, sem estudos ou estudos numa privada (que é a mesma coisa na opinião dela e ninguém me tira da cabeça, que foi pela mesma razão que o pobre do Paulo Teixeira Pinto saltou do BCP, aquele curso de direito na Livre não passava incólume num bando de escrupulosos puristas) e para terminar o mal da própria democracia portuguesa, conspurcada, corrupta, falhada. Um texto dantesco, mas escrito numa prosa inflamada, prontinho para promover a associação fácil e bacoca para juntos (pelo menos aos compradores do Expresso), dizerem “Mal”.

De algum modo surpresa pelo dito email (depois de uma ameaça de mortandade estar eu ainda, na sua lista de endereços), lembrei-me que o tal Moura que mo enviava, é um famoso, conceituado, bem cotado, bem na vida, bem posto, (bem-bom), Senhor Gestor de dinheiros, vejam só, provenientes do erário público! Pois é! Mas estaria porventura distraído, que faz parte dos executivos da empresa que emprega capitais públicos (sim, vindos dos impostos, taxas, coimas, que todos pagamos até pelo ar que respiramos), chamados capitais de risco, em sítios que se desconhece, que não vêm a público, tal é o risco em que se arriscou, que não se sabe porque se arrisca ali em detrimento de acolá, que não se sabe que capacidades têm aqueles senhores para deixar cair aquela empresa ou negócio e injectar capital na outra, que não se sabe, quanto dinheiro já foi mal apostado, quanto dinheiro se perdeu e se alguém é avaliado e castigado por ter feito asneira!

Senhor Moura, o senhor já se esqueceu que aufere um ordenado digno de um gestor sueco, (gestor sueco antes da crise, porque neste momento o gestor sueco já baixou o seu próprio ordenado), tem um carro de luxo, Lexus, que no mínimo custa 40000€, ajudas de custo e cartão de crédito, viagens e deslocações, almoços e jantares e tempo! O senhor tem tempo livre! Pode ir ao ginásio, à sauna, à massagem e à bruxa. E sei que ainda lhe sobra uma perninha, para comer alguma presa feminina bem em cima da mesa de trabalho no seu gabinete minimalista com vista para a Praça de Touros lisboeta, à luz ténue do candeeiro de pé em aço inoxidável.

Moura, filho, não sejas inocente e não te deixes sensibilizar tanto pela emoção na escrita de uma mulher que sobretudo, precisa de ajudar a vender o jornal para onde trabalha e tu, põe-te de gatas (uma posição que te é tão querida), e agradece a esta nação valente e nobre povo que continuam a pagar-te um bom salário no final do mês.

Caos Calmo

•Dezembro 31, 2008 • 2 Comentários

caos2Fui ver o Moretti. O Nanni Moretti. Vim enlevada, na sonoridade das palavras italianas. Todo o filme só é bom porque é falado em italiano. E eles falam muito, “Graças a Deus”! Que pecado seria se fosse um filme, somente de olhares e busca de sentimentos e sensações por parte do espectador!?

Os italianos têm mais duas coisas que me esmagam: são demasiado bonitos e vestem-se bem, têm gosto. São expressivos de olhos e bocas, barbas e cabelos e depois usam uns sapatos com um corte único, italiano, uns casacos ou gabardines, mesmo com aspecto usado, que têm um design, uma elegância sem marca igual.

O filme do Nanni, tem um título muito bom: Caos Calmo. Quando comprei o bilhete não o compreendi. Depois a história desenrola-se, a morte da mulher, de um casamento que parecia bem formatado, mas que depois se percebe que já estava era bem armadilhado por ambos os intervenientes, uma filha pequena, o funeral. O Moretti, que é o viúvo vive a perda numa calma exemplar, no entanto nunca mais vai ser a mesma pessoa que era antes da morte. Nem poderia ser mais, digo eu. A perda, ofereceu-lhe o Caos, que é algo com que se explicam sistemas demasiadamente complexos e dinâmicos, mas ele permanece Calmo.

Quando descobri isto, a meio do filme, deu-me vontade de rir. Como conhecia bem aquele estado e porque raio, nunca me tinha lembrado de uma definição tão brilhante?

Bem, para além do italiano, do linguajar italiano, dos saltos dos sapatos das mulheres, do corte das calças e casacos dos homens e das suas barbas, o filme deu-nos, melhor o filme deu-me uma cena de sexo que o Moretti viveu e prolongou, porque ele é também o realizador, que afinal eu também vivi. E não é que me deu novamente vontade de rir e desta vez de lhe dizer: caramba Nanni eu já entrei em cena da mesma forma que ela entrou, e já fui agarrada com as ganas com que tu simulaste que a agarravas, e já usei aquelas meias pretas de acesso rápido às cuecas, já mordi o lábio e fiz os esgares de dor com os olhos franzidos como mandaste a actriz que fez de tua amante, fazer e usei, (usamos) o silêncio como barulho de fundo de todo o encontro!! No final e com uma certa dolência, fiquei consciente da minha, afinal, falta de originalidade.

Aparece-nos no final o Roman Polanski a fazer de velho de 70 anos poderoso e obviamente bem vestido. Este tipo que em novo tinha uma cara larga de operário polaco, está agora fabuloso e com uma sensualidade assombrosa no andar. Fica a foto do homem. Definitivamente passei a gostar de homens de idade avançada, na escala dos humanos.

 

http://www.imdb.com/media/rm3802896640/nm0000591

 

http://www.guardian.co.uk/film/video/2008/oct/24/nanni-moretti

Travel…Travelling with me

•Dezembro 25, 2008 • Deixe um comentário

Listen carefully this amazing Travel that Zé did for Christmas!

And come on, let travelling together.trav

Thank you Zé, for this beautiful gift….I really like it.

 

http://jase1.mypodcast.com/2008/12/The_Travel-169647.html

Um Senhor Gestor Público

•Outubro 18, 2008 • 1 Comentário

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA….

 

Gestor Público que contribui para o desenvolvimento do Plano Tecnológico do Sócrates e assim para o crescimento sustentado da economia nacional, através da promoção do empreendorismo e da participação proactiva no capital de empresas,…..e outras coisas mais, ameaça matar a amante por esta o ter encontrado numa sessão espírita com o Professor Bambo. A desdita senhora, encontrou na sua caixa de correio a seguinte missiva:

NÃO OUSES MAIS ESCREVER-ME, OLHAR-ME OU USAR QUALQUER OUTRA FORMA DE COMUNICAÇÃO, SENÃO MATO-TE.

 

 

Há países que têm o que merecem!

Um Domingo qualquer

•Julho 6, 2008 • Deixe um comentário

 

Tenho um caderninho que alguém me trouxe da Índia onde estou a escrever, é feito de papel grosseiramente reciclado com aspecto de papel mata-borrão. Como achava graça ao papel mata-borrão cor-de-rosa, que aparava o pingo de tinta da caneta permanente que me ofereceram na 4ª classe! O borrão caía e fazia uma mancha que alastrava, fazia feitios, pareciam caras….como foi boa a minha infância! O tempo grande da minha vida! … onde me deixaram ter espaço para imaginar caretas nos borrões azuis que inundavam o papel macio cor-de-rosa,…..ou quando ía à igreja na aldeia com a minha avó, rezar o terço e as mulheres punham um véu pela cabeça, e eu de mãos juntas fingia rezar e abria os meus olhos grandes para olhar as mulheres a rezar com fervor….adorava quando suspiravam entre a “Avé-Maria” e a “Santa-Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores”….parecia que lhes saíam os tormentos no suspiro…e fechavam os olhos e o véu abanava com os movimentos dos maxilares…os véus eram de tule preto com pintinhas e rendas a debruar e  elas invariavelmente tinham o cabelo apanhado num carrapito seguro com um gancho a que se chama travessa….e eu juntava mais as mãos, cerrava muito os olhos e jurava que seria boa como Maria, Nossa Senhora,….., mas como por magia, quando cerrava os olhos com muita força, começava a ver cores, nunca percebi bem o fenómeno….e rapidamente me distraía da minha vontade de ser santa, abria e fechava os olhos com força e as cores saiam cá para fora! Eram lindas! …. De repente sentia a mão da minha avó: – Luisita, vamos embora está na hora! – Mas que hora? – pensava eu …nas infâncias belas não há horas…o tempo é grande e passa devagar….

 

Agora adulta, sento-me na areia quente de uma praia qualquer, junto as pernas ao peito, agarro-as com os braços e olho o mar….lá vai, lá vem….os movimentos são sempre iguais, mas nunca cansa a sua repetição, o azul intenso,…., a luz aberta, o quente na pele,….

Deito-me para trás, sem toalha, gosto de me sentir suja de areia e o quente da mãe terra é um ninho acolhedor,…., abro as mãos e deixo a areia escorrer pelos buracos dos meus dedos, fecho os olhos com força o sol bate-me em cima e vejo cores,…., são quadradinhos de papel de seda como confetis, azuis, amarelos, verdes, rosas e vermelhos…, sorrio,….fico com a boca comprida quando sorrio assim…., gostava da praia só para mim…, em silêncio,….- Mas porque é que as crianças gritam e chamam tanto pela mãe? Levanto-me, sustento-me no antebraço,…., um rapaz e uma rapariga, beijam-se apaixonadamente de pé em frente ao mar,…., é tão indiscreto olhar para os beijos entre duas pessoas! As cabeças que mudam de posição e ele compõe-lhe o cabelo comprido que tapa o rosto dela e ela passa-lhe uma mão esguia com as unhas compridas pintadas de preto, pelo corpo dele…..

 

Carla olhou para  Bruno, sentado no sofá…não podia continuar mais aquela farsa! Pegou no saco e nas chaves de casa, os miúdos brincavam no chão com um jogo de peças barato: – Onde vais mamã? – A mãe já vem! – disse ela.

Bateu com a porta, saiu. Abriu a sacola, verificou se tinha dinheiro, óculos escuros e telemóvel. O que tinha dava pró comboio, precisava pensar, apanhar ar, sufocava naquela casa….a caminhar, mandou um sms a Paulo: “Estou só. Gostava de te ver. Podes?”

Sabia que não teria resposta, mas fê-lo na mesma, sentiu-se acompanhada, ficaria à espera: – É sempre melhor ter alguém para esperar – pensou. Meteu-se a caminho, autocarro e comboio para a Linha. O trepidar do comboio acalmou-a, encostou a cabeça no vidro quente, pareceu-lhe um ombro de um homem…olhou o visor do telemóvel….nada.

 

O areal repleto de famílias debaixo de chapelinhos coloridos, risadas, à beira-mar as crianças gritam, chapinham, chamam pela Mãe…lembrou-se dos seus filhos, o André e a Patrícia, em cima da carpete desbotada, de peles branquinhas descoloradas pelas longas horas de infantário a que eram sujeitos…ter-lhes-ia feito bem, apanhar um pouco de sol…descalçou as sandálias de tiras, levava uns corsários brancos e uma T-shirt verde, tirou os óculos da cara e prendeu os cabelos compridos que teimosamente lhe tapavam os olhos, sempre gostou de ter o cabelo comprido…., olhou o mar,….que lindo estava! Um vai e vem de ondas,…., a água fria chegou-lhe aos pés, gritou! Como lhe dava energia aquele azul….sentiu-se feliz no nada,….pensou em Paulo, nos braços que a apertavam e lhe davam prazer,…., levantou areia molhada com o pé e pontapeou-a para longe, outro pontapé, outro, e mais outro, …., reparou que já incomodava quem passava com salpicos de água e de areia….deitou-se na areia quente,….percebeu que nem toalha trazia.

Despiu a T-shirt e ficou com a parte de cima de um biquíni usado que já não lhe favorecia o peito grande de mãe. Esticou o corpo pela areia e sentiu-se um lagarto ao sol….enterrou os dedos e as unhas pintadas de um verniz incolor um pouco descascado, na areia. Meteu-os fundo, como se quisesse perfurar o chão, começou a sentir a areia molhada que se metia por entre as unhas e lhe fazia doer…

Pensou na vida, na infância rápida, na juventude vazia e com poucas oportunidades,…, no casamento com o namorado de sempre que nunca passou do garoto que foi seu vizinho na rua onde morava com os pais…..o curso de Direito que conseguiu tirar enquanto trabalhava, o que lhe garantia hoje um emprego com responsabilidade e um ordenado compatível,….os filhos que teve e tanto queria ter, como fêmea procriadora não descansou enquanto não se viu prenha,….., a casa pequena muito fora de portas que a envergonhava, três camisas e dois saia e casaco que levava às reuniões e audiências em tribunal,…., a vida sem rumo,  um companheiro sem objectivos, sem futuro agora desempregado, sem rosto, sem sorriso, arrastava-se pela vida, afundava-lhe a dela….

 

Adormeceu….embalada pelos sons da praia e pelo sussurrar do mar, que lhe fez parecer os gemidos silenciosos dela e do amante…..

 

Regressa a casa,…., um homem adormecido no sofá, os miúdos sentados no chão as peças do jogo barato espalhadas à volta deles, viam um vídeo cansado, de desenhos animados, havia um cheiro a pizza e a ranço no ar:

 - Mamã, já voltaste? Comemos pizza!

Pegou neles, lavou-os, beijou-os e deitou-os, aninhou-os nas suas caminhas limpas.

 

Olhou-se no espelho do quarto e despiu-se, tinha a pele vermelha do sol e uns olhos bonitos….o telemóvel vibrou em cima da cómoda,….., nua, agarrou nele com avidez, mensagem, e leu:

 

Carlinha, desculpa n vi a msg L. Estive na praia c a Isabel e miúdos. Estava um dia fantástico, devias ter ido também! J. Beijocas. Amanhã mostro-te o bronze! J

 

 

 

Domingo, 6 de Julho 2008