Tenho um caderninho que alguém me trouxe da Índia onde estou a escrever, é feito de papel grosseiramente reciclado com aspecto de papel mata-borrão. Como achava graça ao papel mata-borrão cor-de-rosa, que aparava o pingo de tinta da caneta permanente que me ofereceram na 4ª classe! O borrão caía e fazia uma mancha que alastrava, fazia feitios, pareciam caras….como foi boa a minha infância! O tempo grande da minha vida! … onde me deixaram ter espaço para imaginar caretas nos borrões azuis que inundavam o papel macio cor-de-rosa,…..ou quando ía à igreja na aldeia com a minha avó, rezar o terço e as mulheres punham um véu pela cabeça, e eu de mãos juntas fingia rezar e abria os meus olhos grandes para olhar as mulheres a rezar com fervor….adorava quando suspiravam entre a “Avé-Maria” e a “Santa-Maria mãe de Deus, rogai por nós pecadores”….parecia que lhes saíam os tormentos no suspiro…e fechavam os olhos e o véu abanava com os movimentos dos maxilares…os véus eram de tule preto com pintinhas e rendas a debruar e elas invariavelmente tinham o cabelo apanhado num carrapito seguro com um gancho a que se chama travessa….e eu juntava mais as mãos, cerrava muito os olhos e jurava que seria boa como Maria, Nossa Senhora,….., mas como por magia, quando cerrava os olhos com muita força, começava a ver cores, nunca percebi bem o fenómeno….e rapidamente me distraía da minha vontade de ser santa, abria e fechava os olhos com força e as cores saiam cá para fora! Eram lindas! …. De repente sentia a mão da minha avó: – Luisita, vamos embora está na hora! – Mas que hora? – pensava eu …nas infâncias belas não há horas…o tempo é grande e passa devagar….
Agora adulta, sento-me na areia quente de uma praia qualquer, junto as pernas ao peito, agarro-as com os braços e olho o mar….lá vai, lá vem….os movimentos são sempre iguais, mas nunca cansa a sua repetição, o azul intenso,…., a luz aberta, o quente na pele,….
Deito-me para trás, sem toalha, gosto de me sentir suja de areia e o quente da mãe terra é um ninho acolhedor,…., abro as mãos e deixo a areia escorrer pelos buracos dos meus dedos, fecho os olhos com força o sol bate-me em cima e vejo cores,…., são quadradinhos de papel de seda como confetis, azuis, amarelos, verdes, rosas e vermelhos…, sorrio,….fico com a boca comprida quando sorrio assim…., gostava da praia só para mim…, em silêncio,….- Mas porque é que as crianças gritam e chamam tanto pela mãe? Levanto-me, sustento-me no antebraço,…., um rapaz e uma rapariga, beijam-se apaixonadamente de pé em frente ao mar,…., é tão indiscreto olhar para os beijos entre duas pessoas! As cabeças que mudam de posição e ele compõe-lhe o cabelo comprido que tapa o rosto dela e ela passa-lhe uma mão esguia com as unhas compridas pintadas de preto, pelo corpo dele…..
Carla olhou para Bruno, sentado no sofá…não podia continuar mais aquela farsa! Pegou no saco e nas chaves de casa, os miúdos brincavam no chão com um jogo de peças barato: – Onde vais mamã? – A mãe já vem! – disse ela.
Bateu com a porta, saiu. Abriu a sacola, verificou se tinha dinheiro, óculos escuros e telemóvel. O que tinha dava pró comboio, precisava pensar, apanhar ar, sufocava naquela casa….a caminhar, mandou um sms a Paulo: “Estou só. Gostava de te ver. Podes?”
Sabia que não teria resposta, mas fê-lo na mesma, sentiu-se acompanhada, ficaria à espera: – É sempre melhor ter alguém para esperar – pensou. Meteu-se a caminho, autocarro e comboio para a Linha. O trepidar do comboio acalmou-a, encostou a cabeça no vidro quente, pareceu-lhe um ombro de um homem…olhou o visor do telemóvel….nada.
O areal repleto de famílias debaixo de chapelinhos coloridos, risadas, à beira-mar as crianças gritam, chapinham, chamam pela Mãe…lembrou-se dos seus filhos, o André e a Patrícia, em cima da carpete desbotada, de peles branquinhas descoloradas pelas longas horas de infantário a que eram sujeitos…ter-lhes-ia feito bem, apanhar um pouco de sol…descalçou as sandálias de tiras, levava uns corsários brancos e uma T-shirt verde, tirou os óculos da cara e prendeu os cabelos compridos que teimosamente lhe tapavam os olhos, sempre gostou de ter o cabelo comprido…., olhou o mar,….que lindo estava! Um vai e vem de ondas,…., a água fria chegou-lhe aos pés, gritou! Como lhe dava energia aquele azul….sentiu-se feliz no nada,….pensou em Paulo, nos braços que a apertavam e lhe davam prazer,…., levantou areia molhada com o pé e pontapeou-a para longe, outro pontapé, outro, e mais outro, …., reparou que já incomodava quem passava com salpicos de água e de areia….deitou-se na areia quente,….percebeu que nem toalha trazia.
Despiu a T-shirt e ficou com a parte de cima de um biquíni usado que já não lhe favorecia o peito grande de mãe. Esticou o corpo pela areia e sentiu-se um lagarto ao sol….enterrou os dedos e as unhas pintadas de um verniz incolor um pouco descascado, na areia. Meteu-os fundo, como se quisesse perfurar o chão, começou a sentir a areia molhada que se metia por entre as unhas e lhe fazia doer…
Pensou na vida, na infância rápida, na juventude vazia e com poucas oportunidades,…, no casamento com o namorado de sempre que nunca passou do garoto que foi seu vizinho na rua onde morava com os pais…..o curso de Direito que conseguiu tirar enquanto trabalhava, o que lhe garantia hoje um emprego com responsabilidade e um ordenado compatível,….os filhos que teve e tanto queria ter, como fêmea procriadora não descansou enquanto não se viu prenha,….., a casa pequena muito fora de portas que a envergonhava, três camisas e dois saia e casaco que levava às reuniões e audiências em tribunal,…., a vida sem rumo, um companheiro sem objectivos, sem futuro agora desempregado, sem rosto, sem sorriso, arrastava-se pela vida, afundava-lhe a dela….
Adormeceu….embalada pelos sons da praia e pelo sussurrar do mar, que lhe fez parecer os gemidos silenciosos dela e do amante…..
Regressa a casa,…., um homem adormecido no sofá, os miúdos sentados no chão as peças do jogo barato espalhadas à volta deles, viam um vídeo cansado, de desenhos animados, havia um cheiro a pizza e a ranço no ar:
- Mamã, já voltaste? Comemos pizza!
Pegou neles, lavou-os, beijou-os e deitou-os, aninhou-os nas suas caminhas limpas.
Olhou-se no espelho do quarto e despiu-se, tinha a pele vermelha do sol e uns olhos bonitos….o telemóvel vibrou em cima da cómoda,….., nua, agarrou nele com avidez, mensagem, e leu:
Carlinha, desculpa n vi a msg L. Estive na praia c a Isabel e miúdos. Estava um dia fantástico, devias ter ido também! J. Beijocas. Amanhã mostro-te o bronze! J
Domingo, 6 de Julho 2008